Manual · Kaizer
Manual de progressão para treinadores
Cinco alavancas de sobrecarga, uma escala de esforço e uma semana de deload: o que é preciso para um aluno intermediário continuar progredindo quando o peso na barra para de subir.
Feito para imprimir e deixar ao lado enquanto você monta o bloco. Cada afirmação vem com o estudo que a sustenta, listado no final.
01Sobrecarga não é só peso
Sobrecarga progressiva é expor o músculo a um estímulo mecânico que supere progressivamente o que ele já tolera. Wackerhage e colaboradores (2023) estabeleceram que a tensão mecânica é o estímulo primário da hipertrofia. Existe mais de uma forma de gerá-la.
Plotkin e colaboradores (2022) dividiram 43 sujeitos treinados em dois grupos durante oito semanas: um progredia carga, o outro progredia repetições com o mesmo peso. Não houve diferenças significativas em hipertrofia. O que importava era que o estímulo total aumentasse ao longo do tempo, não qual variável subia.
| Alavanca | Como se move | Quando se apoiar nela |
|---|---|---|
| Carga | Mais quilos nas mesmas repetições | Iniciantes, onde o sistema nervoso ainda tem margem |
| Repetições | Mais reps com o mesmo peso | Intermediários: equivalente à carga para hipertrofia (Plotkin, 2022) |
| Proximidade da falha | Menos repetições em reserva | Quando carga e reps estão travadas: 1–2 RIR bastam (Refalo, 2024) |
| Volume | Mais séries semanais por grupo muscular | Dose-resposta com retornos decrescentes depois do limiar individual (Pelland, 2026) |
| Amplitude de movimento | Mais percurso, sobretudo em posições alongadas | Avançados: a evidência em humanos ainda está amadurecendo |
Se a única métrica que você registra é o peso levantado, quatro das cinco alavancas ficam invisíveis. O aluno que fez 3×8 com 80 kg na semana passada e hoje fez 3×10 com 80 kg progrediu.
02O esforço também se prescreve: RIR
O RIR são as repetições que sobravam ao terminar a série. Zero RIR é a falha absoluta. Helms e colaboradores (2016) formalizaram sua equivalência com o RPE, e prescrever proximidade da falha transforma um “faça pesado” em algo concreto e repetível.
Refalo e colaboradores (2023), em uma revisão sistemática com metanálise, encontraram que treinar mais perto da falha traz, na melhor das hipóteses, uma vantagem pequena em hipertrofia. O ensaio de oito semanas do mesmo grupo (2024) mostrou na prática: deixar uma ou duas repetições em reserva produziu a mesma massa muscular que levar cada série à falha, com menos fadiga acumulada.
Estimar é uma habilidade que se treina. Steele e colaboradores (2017) analisaram 141 pessoas e quase todas subestimavam a própria falha: os experientes erravam por 1 ou 2 repetições, os iniciantes por 4 ou 5. Registrar peso, repetições e RIR série a série é o que encurta essa distância.
| RPE | RIR | Como se sente |
|---|---|---|
| 10 | 0 | Não entra mais nenhuma repetição |
| 9 | 1 | Sobrava uma |
| 8 | 2 | Sobravam duas; a barra já anda devagar |
| 7 | 3 | Sobravam três; a velocidade ainda é alta |
| 6 ou menos | 4 ou mais | Trabalho de técnica ou semana de deload |
A falha tem um custo: mais fadiga, descansos mais longos e técnica que se suja nas últimas repetições. Se o crescimento é quase idêntico, pagar isso em cada série raramente compensa.
03O deload: quando e quanto
O nível de forma de um aluno é a diferença entre o condicionamento dele e a fadiga que carrega. Depois de várias semanas duras a fadiga esconde o progresso: os pesos parecem mais pesados, a técnica se suja, a motivação cai. Um deload deixa a fadiga cair mantendo a maior parte da adaptação.
O medo de perder músculo não se sustenta. Coleman e colaboradores (2024) acompanharam 39 pessoas por nove semanas: um grupo encaixou uma semana de deload no meio e o outro treinou sem parar. Não houve diferenças apreciáveis em crescimento muscular, potência ou resistência local. Apareceu, sim, uma leve desvantagem em algumas medidas de força máxima na volta. O deload é a ferramenta para quando a fadiga justifica, não uma pausa fixa no calendário de todo mundo.
Sinais para antecipá-lo
- O rendimento trava ou cai em exercícios que vinham subindo.
- Incômodos articulares que não terminam de passar entre as sessões.
- Pior sono, mais irritabilidade ou desânimo vários dias seguidos.
- A técnica se deteriora em séries que antes ele controlava bem.
Quanto baixar: a alavanca principal é o volume. Metade das séries e duas repetições a menos por série, deixando entre duas e três em reserva. A intensidade pode ficar bem alta. Manter a frequência preserva a técnica e o hábito: os mesmos dias, sessões mais curtas, e cada uma termina com a sensação de que dava para fazer bem mais. Uma a cada cinco ou seis semanas é a média razoável, ou antes se os sinais chegarem primeiro.
04Um bloco de seis semanas, alavanca por alavanca
É a ordem em que vale a pena mover as alavancas quando você não sabe qual mover. Uma por semana, e mensurável.
| Semana | Volume | Esforço alvo | O que você registra |
|---|---|---|---|
| 1 | Base do bloco | 3 RIR | Peso, repetições e RIR de cada série |
| 2 | Base | 2 RIR | A mesma tabela: primeira comparação com a semana 1 |
| 3 | +1 série nos básicos | 2 RIR | Se o peso não sobe, as repetições deveriam subir |
| 4 | Igual à semana 3 | 1–2 RIR | A proximidade da falha como alavanca, sem mexer na carga |
| 5 | Igual à semana 3 | 1 RIR | Pico do bloco: é aqui que aparecem os sinais de fadiga |
| 6 | Metade das séries | 2–3 RIR | Deload: mesma frequência, sessões curtas |
05A revisão semanal, em dez minutos
- Para cada aluno, olhe a última sessão de cada básico: o peso subiu, as repetições subiram ou o RIR caiu.
- Marque quem progrediu em repetições. É progresso real e não aparece se você só olhar quilos.
- Anote quem está há duas semanas sem mover nenhuma das cinco alavancas.
- Revise os sinais de fadiga antes de programar a semana seguinte.
- Se for subir alguma coisa, suba uma única alavanca e deixe-a mensurável.
De onde sai este manual
É o destilado de três artigos do blog da Kaizer. Se quiser a versão longa de qualquer uma das três partes, elas estão aqui:
Fontes
- Plotkin et al. (2022). Progressive overload without progressing load? PeerJ.
- Wackerhage et al. (2023). Mechanisms of mechanical overload-induced skeletal muscle hypertrophy. Physiological Reviews.
- Refalo et al. (2023). Influence of Resistance Training Proximity-to-Failure on Skeletal Muscle Hypertrophy. Sports Medicine.
- Refalo et al. (2024). Similar muscle hypertrophy following training to failure or with repetitions-in-reserve. Journal of Sports Sciences.
- Pelland et al. (2026). The Resistance Training Dose Response. Sports Medicine.
- Helms et al. (2016). Application of the Repetitions in Reserve-Based RPE Scale for Resistance Training.
- Steele et al. (2017). Ability to Predict Repetitions to Momentary Failure Improves With Resistance Training Experience.
- Coleman et al. (2024). Gaining more from doing less? The effects of a one-week deload period. PeerJ.
- Bell et al. (2023). Integrating Deloading into Strength and Physique Sports Training Programmes. Sports Medicine - Open.
